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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Feliz Natal, Feliz 2012

Para que venha o mundo novo, é preciso colocar para trabalhar a imaginação, a fantasia, a esperança, a utopia. O novo não virá, a menos que muitos e muitas o sonhem utopicamente, esforcem-se por configurá-lo como sonho e projeto, como esperança. Sonhar um outro mundo possível é um primeiro passo para fazer com que aconteça. Como será este outro mundo possível? Como deveria ser? Porque não começarmos a refletir sobre o que nos diz Fernando Pessoa, "Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo!"

E isso é possível, no momento em que estamos vivendo, pela comunicação e conhecimento que todos podemos ter sobre o que acontece e o que não acontece. E porque sentimos que somos todos afetados pelos mesmos poderes, os mesmos perigos e os mesmos sonhos, quando sonhamos humanamente.

Vivenciamos o mesmo sistema. Cada vez mais, num sentido verdadeiro, percebemos que estamos em um mesmo mundo, e que pertencemos a uma mesma Humanidade. Estamos em um momento privilegiado para assumir a responsabilidade pelo mundo e participar.
Isto posto é importante indagar, será que  temos criado situações temporais e espaciais para pensar nessas questões na nossa vida cotidiana? Ou, se pensamos, será que já não nos rendemos à rotina, à fragmentação da sociedade moderna, ocidental, neocapitalista e globalizada, que nos impõe um ritmo frenético de trabalho, de falta de tempo, de ausência de carinho, de amorosidade, de desejos compartilhados... deixando-nos levar pelo isolamento, pelo individualismo, pela competição exacerbada, pela naturalização do que não deveria ser natural – por exemplo, o descaso com a coisa pública, a falta de ética e de estética, a falta de cuidado e de solidariedade para com o nosso próximo, até mesmo a falta de cuidado com a própria saúde, a falta de amizades ou, por outro lado e paradoxalmente, o excesso de cuidado com o corpo e as relações virtuais, cibernéticas e descartáveis?

Porque para mudar o mundo é preciso conhecê-lo. Um dos conceitos chave da obra de Paulo Freire é o da Leitura do Mundo. Simplificando, significa conhecer a realidade antes de nela intervir e transformar. E conhecendo nosso mundo, sabemos que é preciso reinventar a sociedade e o próprio homem. Mas podemos, depende de cada um de nós. Precisamos  construir um ser humano capaz de se relacionar bem com as outras pessoas e com o mundo em que ele vive, de forma consciente, sustentável, crítica e sensível, valorizando e respeitando as diferenças culturais e cuidando para que os seus direitos comecem onde começam os direitos dos outros.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

UNASUL, O QUE É?

Desde meados do século XX, a integração regional consolida-se como importante fenômeno internacional. O estreitamento dos laços políticos e econômicos entre os povos que compartilham herança histórica e vizinhança geográfica permite enfrentar melhor os desafios do mundo globalizado.

A Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai assinaram, em 26 de março de 1991, o Tratado de Assunção, com o objetivo de criar o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). O objetivo do Tratado de Assunção é a integração dos quatro Estados Partes por meio da livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos, do estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum (TEC), da adoção de uma política comercial comum, da coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais, e da harmonização de legislações nas áreas pertinentes. Em dezembro, de 1994 foi aprovado o Protocolo de Ouro Preto, que estabeleceu a estrutura institucional do MERCOSUL e o dota de personalidade jurídica internacional. Agora se busca estender essa experiência do Mercosul, unificando os 12 países sul americanos para criar a Unasul. Mas, o que é a UNASUL?

A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) é uma comunidade formada por doze países sul-americanos. Fazem parte dela os seguintes países: Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana, Suriname e Venezuela. Panamá e México participam como membros observadores e poderão, futuramente, integrar a comunidade. Em 8 de dezembro de 2004, na cidade de Cuzco (Peru) foi realizada a 3ª Reunião de Presidentes da América do Sul. Nesta ocasião, foi redigido um documento (Declaração de Cuzco) que criou as bases para a Unasul. O projeto criado nesta oportunidade ganhou o nome de Casa (Comunidade Sul-Americana de Nações). Em 2007, durante a 1ª Reunião Energética da América do Sul (realizada na Venezuela), o nome foi modificado para Unasul.

O objetivo principal da Unasul é propiciar a integração entre os países da América do Sul. Esta integração ocorrerá nas áreas econômica, social e política. Dentro deste objetivo, espera-se uma coordenação e cooperação maior nos segmentos de educação, cultura, infra-estrutura, energia, ciências e finanças. Em 23 de maio de 2008, em Brasília, representantes dos doze países assinaram um tratado para a criação da Unasul.

Com este tratado, a Unasul passa a ser um organismo internacional, deixando a fase de debates para entrar na criação prática de medidas. Este tratado ainda precisa ser ratificado pelos congressos dos países membros.
A Unasul terá três órgãos deliberativos: Conselho de Chefes de Estado e de Governo, Conselho de Ministros de Relações Exteriores e Conselho de Delegados. Outras propostas em discussão: Criação de um Conselho de Defesa da América do Sul; Criação de um Parlamento único;Criação de uma moeda única; Criação de um banco central para a comunidade.

SIDNEI DE PAULA CORRAL
Secretário de Relações Internacionais para as Américas

JOGUE LIMPO: Play Fair

Na luta pelo trabalho decente para a Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos 2016, a UGT lançou a campanha JOGUE LIMPO. O objetivo é lutar para que os trabalhadores envolvidos na construção dos estádios para os megaeventos esportivos venham a ter seus direitos trabalhistas garantidos.

A campanha é organizada desde os jogos Olímpicos de Atenas (2004) por organizações sindicais internacionais e ONGs, tais como a CSI - Confederação Sindical Internacional, CSA – Confederação Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas, a Federação Internacional dos Trabalhadores Têxtil, Vestuário e Couro (FITTVC), a Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM), e a Clean Clothes Campaign, uma aliança internacional de ONGs e sindicatos que trabalham para a melhoria dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. No Brasil, a campanha possui o apoio da CSA, e centrais sindicais brasileiras.
Exigir que os trabalhadores e trabalhadoras tenham respeitados os seus direitos,  recebendo tratamento justo e remuneração adequada, é dever do  movimento sindical. A União Geral dos Trabalhadores (UGT), não se furta a essa responsabilidade.

A central chamou para si o desafio de encampar a campanha JOGUE LIMPO, liderada pela Confederação Sindical Internacional (CSI). A UGT já está na luta para que os organizadores desses eventos assumam e cumpram compromisso com os trabalhadores, assegurando condições dignas de trabalho e respeitando os direitos trabalhistas e sindicais.

A campanha pretende que a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional, juntamente com os comitês locais, assumam a responsabilidade por garantir que toda a produção e construção relacionadas com os eventos esportivos sejam justos para os trabalhadores envolvidos na fabricação de artigos esportivos e na construção dos estádios.


SIDNEI DE PAULA CORRAL
Secretário de Relações Internacionais para as Américas

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Insegurança alimentar

“La inseguridad de la “seguridad alimentaria”, descolonizar el “desarrollo” como meta universal para construir  ‘sostenibilidad alimentaria’ en América Latina”
 José de Souza Silva/Pesquisador da Embrapa

Falar em Desenvolvimento Sustentável é falar no paradigma do mundo atual. A palavra desenvolvimento, que antes era sinônimo de progresso e crescimento, hoje passa a ter outro enfoque, o da sustentabilidade. 
Entretanto, é importante ressaltar que há anos tomamos como base para o desenvolvimento somente os aspectos econômicos o que acarretou extrema competitividade e desgaste dos recursos naturais pelo atual modelo para a agricultura. E nesse sentido o mercado tomou um rumo extremamente individualista e transformou a racionalidade das pessoas e como ressalta Bourdieu (2008): “los vínculos reducidos a su dimensión puramente ‘económica’ son concebidos como vínculos de guerra, que sólo pueden entablarse entre extraños. El lugar por excelencia de la guerra económica es el mercado...”.
Por isso é importante falar de desenvolvimento e questionar o modelo vigente cheio de contradições mas contradições que são só aparentes. Se não vejamos o que diz José de Souza Silva, pesquisador da Embrapa, “A humanidade foi recentemente surpreendida por uma crise alimentar num mundo onde prevalece a abundância. Estudos recentes confirmam que o alimento produzido globalmente é o dobro da necessidade mundial. Não foi a escassez de alimentos a causa da suposta crise alimentar, mas as contradições do sistema agrícola e alimentar que remete a uma ordem institucional corporativa que organiza o sistema alimentar para o lucro de empresas transnacionais que controlam o sistema e não para alimentar a população mundial”.  
Conforme pesquisa da FAO, hoje existem cerca de 800 milhões de pessoas no mundo em situação de extrema pobreza. A população vive em meio a uma insegurança alimentar. A FAO estima que o número de pessoas subnutridas no mundo caiu de 1,02 bilhões em 2009 para 925 milhões em 2010. A nova estimativa indica uma reversão na tendência de aumento da fome verificada nos últimos 15 anos. No entanto, não podemos nos esquecer que, em 1990-1992, a população subnutrida no mundo era de 843 milhões, ou seja, 82 milhões a menos que o estimado para 2010.
Mas, se a produção de alimentos dobrou no mundo, então porque 800 milhões de pessoas continuam passando fome? Na América Latina é particularmente preocupante a evolução da subnutrição nos países centro-americanos. Nesta sub-região, o número de pessoas subnutridas, longe de diminuir, continua aumentando.
Entre 8 e 12% da população da América Latina é indígena. Desses 80% são discriminados e vivem abaixo da linha da pobreza, são os povos mais vulneráveis da região.
A América Latina tem características geográficas e características climáticas, que favorecem a diversidade de produtos. E isso, obviamente, significaria uma alimentação muito rica e saudável. Entretanto, desde a colonização novos costumes e hábitos foram introduzidos entre os povos indígenas. O trigo foi trazido pelos espanhóis há 500 anos e substituiu, lamentavelmente, muitos dos produtos energéticos que os povos originários conheciam.
No equador, na cidade de Chimboraza, 94% da população é indígena. Nesta região é onde mais tem se concentrado a exclusão, a pobreza, a desnutrição e a fome. Falamos de uma média de desnutrição de 26%, mas, em relação às comunidades rurais e comunidades indígenas, encontramos dados que, em alguns casos, chegam a 40%. As crianças começam a se envolver no sistema de trabalho a partir dos seis(6) ou sete(7) anos para constituir um apoio econômico para as famílias.
Não bastasse isso, em 3 anos a base alimentar de milhões de pessoas na América Latina e Caribe ficou 60% mais cara. Aproximadamente 70% da humanidade se alimenta de milho, arroz e trigo. De 2006 a agosto de 2008, esses cereais subiram 97%.
Segundo a FAO (Fundos das Nações Unidas para a Agricultura), a América Latina e Caribe têm sido a região do planeta mais afetada no aumento de preços dos alimentos depois da África.
Finalmente é importante observar que neste cenário prevalece a busca frenética pela eficiência produtiva da agricultura reduzida a uma máquina de produzir alimentos, fibras e energia. Este mundo condicionado por decisões científico-técnicas é o domínio de engenheiros e outros especialistas indiferentes ao humano, ao social, ao cultural, ao ecológico e ao ético, tendo como causa a sua formação condicionada pelo paradigma clássico de inovação da ciência moderna. Estes especialistas entendem que seu mandato profissional se resume a “produzir mais alimentos” sem preocupação com a forma de produzir nem com o destino dos alimentos e menos ainda com as questões de sua distribuição e acesso. Seu imaginário técnico está condicionado pelo significado quantitativo do conceito de “segurança alimentar”, sem compromisso com a história nem como o contexto, constitutivos da natureza e dinâmica do ciclo de sustentabilidade alimentar em diferentes sociedades. A fome é um problema social que resulta da forma de organização social da produção e distribuição de alimentos.
  
SIDNEI DE PAULA CORRAL
Secretário de Relações Internacionais para as Américas

Fonte:
BOURDIEU, Pierre. La Fabricación Del Habitus Econômico. Revista Latinoamericana de ciências sociales: La vida Social de La economia: Critica en desarrollo. Parana, Argentina, 2008, 2ed.
Engenheiro Agrônomo, mestre em Sociologia da Agricultura e Ph.D. em Sociologia da Ciência e la Tecnologia. Foi o criador e Gerente da Secretaria de Gestão e Estrategia (SGE) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Atualmente é Pesquisador da EMBRAPA para as relações  ciência-tecnologia-sociedade-inovação (CTSI) e Consultor do Projecto PALMA em Cuba.  
FAO (2009a). El Estado de la Inseguridad Alimentaria en el Mundo 2009. Rome: FAO.